Jamais a matriz erra, certo? Somos nós, sempre.
Publicado por ACS em 27 Dez 2009 | sob: politica & economia, cultura
Outro dia o Estadão lamentou, em editorial, o momento ruim das relações do Brasil com os Estados Unidos. É óbvio que o Estadão culpou o Brasil. Jamais a matriz erra, certo? Somos nós, sempre, que não sabemos direito o que fazemos. Mas nem todos os americanos acham o mesmo que o Estadão, obviamente. O historiador Andrew Bacevich, da Universidade de Boston, ao escrever uma resenha para a revista World Affairs sobre um importante livro que trata da diplomacia dos Estados Unidos, The Tragedy of American Diplomacy, de autoria de William Appleman Williams, apresentou um resumo interessante dos problemas diante dos quais o país se encontra. Problemas de longo prazo, que existiam durante o governo de George W. Bush (quando o texto foi escrito) e que persistem hoje.
Fiquem com um trecho, traduzido pelo Viomundo:
- A insistência de que os valores americanos são universais, levando ao corolário: “Outros povos não podem resolver seus problemas ou melhorar suas vidas a não ser que façam o mesmo que os Estados Unidos”;
- Um compromisso com o princípio da autodeterminação, baseado na convicção de que “todos os povos precisam se autodeterminar à moda americana se os Estados Unidos quiserem ser seguros e prósperos”; ou, colocado de outra forma, só quando “princípios historicamente americanos forem honrados por todos” a paz mundial será possível;
- A busca pela externalização do diabólico, fortalecendo a crença de que problemas domésticos tem raiz no estrangeiro; “problemas domésticos, portanto, se tornam problemas internacionais” e a política externa dos Estados Unidos se torna continuação da política doméstica por outros meios;
- Um predileção reflexiva por demonizar os adversários; os oponentes dos Estados Unidos não estão meramente errados; eles estão por definição “parcial, quando não totalmente, perdidos, sem recuperação”.
- A crença de que a economia dos Estados Unidos não pode funcionar sem oportunidades para expansão externa e que o sistema político americano não pode funcionar sem prosperidade: estagnação causa dissenção interna e ameaça estabilidade, trazendo o “espectro do caos”; a expansão econômica, assim, “está ligada à prosperidade doméstica e paz social”;
- Uma crescente, mesmo que não admitida, busca da militarização, já que os formuladores da política “cada vez mais definem segurança em termos de conquista — ou pelo menos de dominação”; mas, como William enfatiza, “foram os civis que definiram o mundo em termos militares, não os militares que usurparam o poder civil”;
- Uma confiança no Excepcionalismo Americano e na beneficência dos Estados Unidos; no fim, “uma combinação de poder econômico, gênio intelectual e prático e rigor moral” vão permitir aos Estados Unidos “enfrentar os inimigos da paz e do progresso — e construir um mundo melhor — sem eregir um império [formal] no processo”.
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